16 de mai de 2013

Montadoras se defendem de acusações de morte e culpam Brasil

Artigo do The New York Times comprova a falta de segurança dos modelos nacionais; problemas são estruturais, mas as montadoras culpam o Brasil


Nos últimos dias, muito se tem falado de um artigo publicado no The New York Times, a respeito da segurança de veículos brasileiros que, segundo uma análise feita pela Associated Press, são mortais (sim, essa foi a palavra utilizada). A Anfavea (Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores) -- ou seja, as montadoras -- rebateu as acusações feitas no artigo. Você irá conferir cada parágrafo da nota enviada à imprensa na íntegra, citados em vermelho, e os pontos correspondentes abordados na publicação norte-americana. Será que elas são mesmo tão inocentes quanto "pensam"?
"A indústria automobilística brasileira tem uma longa experiência na produção de veículos. São quase 60 anos no aperfeiçoamento dos sistemas de fabricação e melhoria de qualidade e segurança. Lamentável, portanto, quaisquer correlações entre o número de vítimas no trânsito com os indicadores de qualidade dos veículos produzidos no Brasil."
O índice de mortes de passageiros de automóveis é quase quatro vezes maior do que nos Estados Unidos, porém, a notícia fica pior: enquanto por lá o número caiu 40% em 2010 em relação a última década, em nosso país esse índice cresceu 72%. Segundo Dr. Dirceu Alves, da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), especialista em acidentes de trânsito, a gravura dos acidentes é "simplesmente feia", em um nível que não deveria acontecer.
"Existem vários fatores que influenciam nos acidentes, desde condições das estradas, inabilidade dos motoristas -- provocada muitas vezes pelo consumo de álcool, psicotrópicos ou mesmo cansaço excessivo -- além da precariedade do estado de conservação dos próprios veículos -- pneus desgastados, falta de manutenção, iluminação deficiente, afora eventuais desrespeitos à sinalização de trânsito."
Apesar das montadoras realmente terem algo de concreto ao alegarem isso -- sabemos que nós, brasileiros, podemos ser bem imprudentes, assim como sabemos que a falta de fiscalização e as condições das vias não estão em patamares desejáveis --, é inegável que os carros brasileiros (e latinos) não chegam aos pés do nível de segurança de carros norte-americanos e europeus. Depois de lembrar o que aconteceu com o Nissan March (exemplo utilizado pelo NYT, aliás), que recebeu quatro estrelas na Europa e duas em sua versão latino-americana, as montadoras perdem a razão.

A Nissan argumenta que os testes do EuroNCAP e do LatinNCAP são diferentes, mas não são, o que já foi até mesmo confirmado por Alejandro Furas, diretor técnico do Global NCAP. Ele diz que tanto o March quanto o Micra (nome do modelo na Europa) foram testados no mesmo tipo de laboratório, com o mesmo tipo de dummies (os bonecos) e sob as mesmas condições. O que nos leva a...
"A realidade é que muitos ocupantes são salvos exatamente pela boa qualidade dos veículos produzidos no país, com a adoção de todos os quesitos de segurança passiva e ativa regulamentados pelo Contran. Mais ainda: a indústria cumpre todas as prescrições de segurança regulamentadas pelos órgãos de governo e atestadas por ensaios realizados conforme procedimentos normatizados e auditáveis."
Você sabe quais são os itens obrigatórios exigidos pelo Contran? Não chega nem ao básico. Enquanto em 2014 passaremos a contar com freios ABS e airbag duplo frontal, na Europa e nos EUA itens como controle de tração e de estabilidade estão prestes a se tornarem obrigatórios. Estes itens que entrarão na lista de obrigatoriedade ano que vem? Desde a última década já são obrigatórios nesses outros mercados. Mas e esses "procedimentos normatizados e auditáveis"? Eles devem valer alguma coisa, certo? Bem, para um carro ser vendido no Brasil, a montadora precisa realizar crash tests, mas não há um órgão federal responsável por isso. Então, a própria marca faz o teste e apenas apresenta os resultados ao governo. Assim fica fácil.

É desse jeito que as montadoras podem simplesmente empregar materiais de qualidade inferior na estrutura do veículo produzido no Brasil. Um engenheiro que trabalhou numa empresa norte-americana e não quis revelar seu nome para o jornal diz que "as fabricantes se contentam em produzir carros mais lucrativos onde a demanda é menos rigorosa", justamente o caso do Brasil. "As marcas fazem isso porque os carros são um pouco mais baratos de fabricar e há menos exigências dos consumidores, já que o conhecimento sobre questões de segurança são menores do que os de europeus e estadunidenses", disse a coordenadora da organização Proteste ao jornal, Maria Ines Dolci.
"As normas e sistemas produtivos existentes no Brasil são os mesmos adotados pelos mais avançados centros produtivos. Como a maioria das plataformas são mundiais, as especificações são idênticas e os cuidados com a produção são os mesmos. Quando existem alterações, na denominada tropicalização dos produtos, são para deixar os veículos ainda mais robustos e seguros para as respectivas aplicações."
Não é bem assim, segundo um engenheiro que trabalhou por três décadas para a Volkswagen e concedeu uma entrevista ao jornal. Ele mostrou ao NYT, com o desenho de dois carros idênticos, um produzido na Alemanha e outro no Brasil, que o segundo conta com várias faltas em sua estrutura, com a ausência de importantes reforços. "O segredo para um carro aguentar crash tests são os pontos de solda; nada falta no carro alemão, ele é sofisticado; o brasileiro parece o mesmo por fora, mas faltam peças; em um há os reforços, no outro não, porque o que importa é a forma final, ninguém se importa com o que há dentro".

E, apesar dos tais reforços citados pela Anfavea (a tropicalização), os carros avaliados pelo LatiNCAP contaram, em grande maioria, com uma estrutura corporal instável. Será que está muito caro produzir no Brasil e é preciso cortar tantos elementos estruturais dos projetos assim? Se o famoso custo-Brasil (que diz que é mais caro produzir por aqui por causa dos altos impostos e taxas internas) é verdadeiro, o mesmo pode se dizer do também famoso lucro-Brasil, já que enquanto a média global de lucro das marcas é de 5% (e 3% nos EUA!), no Brasil esse número dobra, atingindo os 10%.
"O alto estágio da engenharia automotiva nacional tem permitido que as montadoras brasileiras hoje desenvolvam modelos para os mercados mais exigentes, como tem assegurado que a qualidade construtiva dos produtos aqui feitos sejam iguais ou até melhores do que os produzidos em qualquer outro país, ressalta Luiz Moan Yabiku Junior, presidente da Anfavea."




O que dizem as montadoras individualmente


Fiat
"No geral, carros brasileiros ganham mais reforços, para que eles possam encarar as ruas em condições mais severas". Confira os resultados de Palio e Uno no Latin NCAP.

Volkswagen
"A integridade estrutural em crash tests é um padrão global da Volkswagen. O compartimento de passageiros do Gol continuou estável [no teste do Latin NCAP], o que aumenta as chances de sobrevivência dos ocupantes". A marca também diz que os materiais utilizados no Gol são os mesmos utilizados na produção de outros carros ao redor do mundo. Confira os resultados do Gol no Latin NCAP.

Chevrolet
Não comentou a publicação do New York Times. Confira os resultados de Classic e Celta no Latin NCAP.

Ford
A marca admitiu que o Ka [citado na publicação do jornal] utiliza uma plataforma tão ultrapassada que não pode ter os resultados dos testes comparados com os do Ka europeu. Confira como o Ka se saiu no Latin NCAP.

Renault
Declarou que o nível de segurança encontrado no Sandero estava no mesmo nível de segurança da concorrência [essa é uma boa justificativa, afinal, se os outros são ruins, eu também posso ser, certo?!]. Confira como o Sandero se saiu no Latin NCAP.

Nissan
Alegou que o March vendido no Brasil é praticamente o mesmo vendido na Europa. As variações nos testes europeu e latino [que não existem] são as culpadas pela diferença de desempenho em testes de segurança. Confira o resultado do Latin NCAP do Nissan March.

O que diz o governo


O governo declarou, ao jornal estadunidense, que com as novas leis de obrigatoriedade do ABS e do airbag duplo frontal, a segurança irá melhorar drasticamente. Alexandre Cordeiro, ministro interino do Ministério das Cidades, reconheceu a falta de uma organização própria para crash tests, mas disse que o país irá conferir os resultados de testes realizados em outros países. Ele ainda declarou que, considerando crash tests traseiros e frontais, os nossos carros são tão seguros quanto os europeus e americanos. O jornal perguntou, então, a respeito das diferenças entre os resultados do Latin NCAP e do Euro NCAP, e Cordeiro reconheceu que ainda há o que evoluir.

Percebe-se que o governo ficou ao lado das montadoras. Porém, vale citar que essa declaração aconteceu antes da resposta da Anfavea ao artigo. Será que o governo gostou das montadoras terem botado a culpa da insegurança no trânsito brasileiro em problemas de infra-estrutura do país e do comportamento dos brasileiros mesmo após tantos benefícios garantidos a elas, como os vários descontos no IPI e os mimos em relação às importadoras, que sofreram um grande revés ano passado, e até mesmo no novo regime automotivo?


[Fontes: The New York Times, Anfavea, Jalopnik Brasil e Carplace]


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